HOMEM-OBJETO POR ARNALDO JABOR |

HOMEM-OBJETO POR ARNALDO JABOR

12 junho, 2008 por Gustavo Tijolo

Eu vi esse texto no blog PsyNation e prefiro nem comentar sobre, apenas deixo o texto e sugiram que leiam.

Antes, os homens, desejávamos a mulher. Hoje, queremos ser desejados. No tempo de meus pais, elas não davam: só casando. Nelson Rodrigues conta que os noivos galopavam como centauros para o quarto nupcial avançando sobre as noivas pálidas de terror. Filho dessa geração, achava que o desejo da mulher era “conseqüência” do nosso. Achava que levar uma mulher para a cama era algo só de minha responsabilidade, que elas cumpriam cabisbaixas e, depois, gratas.

Hoje, os homens é que dão. Se raspam para ficar com o corpo feminino. Malham para ficar magníficos objetos de prazer. Antes, eram barrigudos informes, sórdidos, com lindas damas ao lado, brutais machões dominando ninfas. Hoje, elas escolhem. Somos analisados minuciosamente nas conversas dos vestiários. Dizem-me informantes traidoras que o papo é mais brutal que conversa de marinheiro. A barriga derruba um apaixonado, a bunda passou a ser um objeto sexual fundamental para as moças: “Que bundinha ele tem!” Nosso pobre feminismo deu nisso: as mulheres analisam os homens como imaginam que eram analisadas: “Que avião, ia te comer todinha…” Hoje, nós somos caricaturas das caricaturas que fazíamos delas.

Sempre imaginei as mulheres como usáveis, romanticamente ingênuas. Mas nunca imaginei ver esse exército de rostos lindos mas duros, implacáveis na avaliação do sujeito, nos olhando como sargentos examinando recrutas. O que nos excitava, ou melhor, nos fazia apaixonados, era ver em seus olhos a busca de proteção. Nossa virilidade era quixotesca, salvadora. Sua fragilidade, mesmo fingida, era tão erotizante… Claro que não me refiro às pobres desamparadas socialmente; falo das peruas de esquerda e de direita (elas existem…), falo da vanguarda das gostosas. Transar com uma mulher hoje é passar por um teste. E surge a dúvida máxima: o que dar às mulheres? Carinho? Proteção? Porrada? Desprezo? Companheirismo? Dar o quê? Dinheiro? Já servimos para sustentá-las, mandar nelas: “Oh bobinhas… não é assim, é assado…” Mas, não sabemos mais o que oferecer. Diante disso, o amor vira batalha de prazeres e dores, guerra constante e excitante, ciúmes afrodisíacos, ódios excitantes para o “make-up fuck” (a melhor que há). Os amores de “Caras” duram semanas; casou, perdeu a graça. Claro que o amor dos desvalidos continua igual: porrada, alcoolismo e abandono.

Assim, creio que a revolução se deu mais por via das mulheres. Já repararam como tem garoto-objeto casando com coroas-celebres? E dizem que dinheiro compra até amor verdadeiro…. Elas mudaram, desde a pílula até hoje. Disse-me uma antropóloga linda que o que mudou foi a transformação do sexo em ginástica, num atletismo em que as perversões proibidas se transformaram em brincadeiras polimorfas. Ninguém peca mais. E a culpa? O limite é o quê? A morte? A Aids segurou um pouco a barra da loucura que se anunciava nos anos 1980, mas agora, com coquetéis, há recrudescimento da sacanagem como parque de diversões. As famosas surubas de antigamente hoje são cirandas-cirandinhas. O bom e velho orgasminho não basta mais. É preciso ir mais longe.

Talvez, busquemos um êxtase permanente num mundo que se aquece, num presente enorme que não acaba. Precisamos de libertinagem constante, já que a tal da liberdade era mesmo “uma calça velha e desbotada”… E que orgasmo é esse que atroará os ares? E, mais seriamente, que transgressão suprema acabará com todos os limites? Muhammad Atta, o chefe do ataque no 11 de setembro, segundo artigo antológico de Martin Amis, não era religioso, não acreditava em Alá, não era militante político, era químico na Alemanha e, no entanto, queria algo supremo. O quê? A realização do inominável, o crime absoluto e, por segundos antes de explodir, sentiu o êxtase do tenebroso.

Nesta neo-libertinagem, queremos ir além das coisas que viramos. Há um desejo de aperfeiçoar os desempenhos. Nas casas de swing, por exemplo, há utopia de se atingir uma paz além do ciúme, da posse, a paz da solidão compartilhada, um companherismo pacífico.

No entanto, faço uma previsão. As coisas vão e voltam. Dentro em pouco, vai ressurgir uma onda romântica, teremos amores infinitos, beijos eternos, fidelidades sem fim. No entanto, onde se aninharão os casais ? No campo? Nas neves derretidas? No pó das cidades? Onde? Não temos onde amar. Não há casulos disponíveis. Famílias, lares? Não. Haverá talvez bordéis românticos, motéis da paixão, onde a paz infinita irá além dos gritos de tesão. Ninguém agüenta mais tanta liberdade….

Arnaldo Jabor


Este post foi criado em: quinta-feira, 12 junho, 2008 ás 3:17 pm na categoria Variedades. Você pode seguir qualquer resposta para essa entrada pelo RSS 2.0 feed. Se preferir pode deixar uma resposta, ou trackback do seu próprio site.

1 resposta Sobre “HOMEM-OBJETO POR ARNALDO JABOR”

  1. ESTAMOS COM FOME DE AMOR... | UmMetrossexual.com comentou:

    […] janeiro, 2011 por Gustavo Tijolo Texto antigo do Jabor, mas que vale uma nova […]

Deixe um comentário